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Sophie é uma cabra cujo gosto literário está mais voltado para best-sellers famosos, segundo Solana Mejia-Schnaufer, que lê trechos da obra em voz alta para ela várias vezes por semana. “Sei que ela gosta de Jogos Vorazes porque não tentou comer o livro. Não posso dizer o mesmo de Libertação Animal.”

Solana, de 21 anos, e Sophie se conheceram no Gentle Barn, um rancho de 20.000 metros quadrados em Santa Clarita, na Califórnia. O local cura e reabilita animais de fazenda maltratados e convida visitantes com deficiências emocionais e físicas a interagir com eles. A interação com Sophie “mudou a minha vida”, diz Solana, cuja batalha contra a depressão e os transtornos alimentares a levou a uma tentativa de suicídio este ano. Ela atribui a Sophie, que foi resgatada de um mini zoológico onde era maltratada, o sucesso de sua .

“Antes de visitar o Gentle Barn, nada me dava a esperança de que valia a pena viver”, ela diz. “Mas quando conheci Sophie, vi que ela tinha a calma mais incrível e a energia mais aberta do mundo. Houve uma troca de amor entre nós da qual eu estava precisando.”

Hoje, Solana trabalha como no Gentle Barn, além de ter se tornado a “pessoa especial” de Sophie, visitando-a pelo menos duas vezes por semana para compartilhar seu companheirismo e um bom livro. “Sophie é como um totem que carrego comigo o tempo todo”, ela diz. “Saber que posso visitá-la me manteve viva.”

Segundo sua fundadora, Ellie Weiner, o Gentle Barn é a concretização de um sonho de infância: “Eu era uma daquelas crianças que levam animais perdidos e machucados para casa. Meus pais não gostavam muito.” Ela diz que foi o seu amor por animais que a ajudou a atravessar a infância enquanto era de doméstica. “Os animais me salvaram e me curaram. Se eles puderam fazer isso por mim, podem fazer por outros também.”

Em 1999, Weiner abriu as portas do rancho para visitantes, e é conhecida por organizar programas para jovens em situação de risco, através de serviços locais para famílias e crianças. No rancho, membros de gangues urbanas, dependentes químicos e jovens vitimas de violência doméstica podem alimentar uma vaca, abraçar um porco, ou simplesmente tentar encontrar um pouco de paz em um cenário rural. Antes dos grupos conhecerem os animais, Weiner, ou seu marido Jay, contam a história de abuso e superação de cada um deles.

Segundo Jamie Lynn Cantor, administradora de serviços para a infância do Departamento de Serviços Para a Infância e a Família, no nordeste de Los Angeles County, isso é muito importante para se ganhar a confiança de crianças problemáticas. “Elas ouvem as histórias desses animais que, após terríveis abusos, conseguiram aprender a amar e confiar novamente. E principalmente, aprendem que há esperança para o futuro e que elas poderão ter uma vida cheia de amor e de pessoas para amá-las. Elas voltam a ter esperança.” Cantor tem trazido grupos de crianças em situação de guarda familiar para o Gentle Barn desde 2008. Ela já viu muitos deles formarem laços de amizade com um pônei chamado Bonsai, cuja antiga dona, alcoólatra, costumava agredi-lo violentamente.

“Um número enorme de crianças se identificaram, dizendo ‘Minha mãe também fazia isso’.” Ela afirma ainda que, embora tenha demorado três anos para que Bonsai começasse a confiar nas pessoas novamente, ele hoje é um pônei brincalhão, com um carinho em particular por crianças com necessidades especiais.

“É muito diferente das terapias tradicionais. Não há qualquer tipo de sondagem ou de regras”, diz Cantor, que lembra de um jovem que ficou amigo de um enorme porco chamado Biscuit. “O garoto havia sofrido abuso sexual e era muito retraído. Assim que ele viu o porco, começou a se abrir um pouco mais. Ele ficou deitado ao lado de Biscuit por duas horas, abraçando e falando com ele. O pobre garoto teve uma experiência de cura e saiu daqui sorrindo.”

Cantor está compilando informações para um pesquisa que se chama “Curando Jovens Através dos Animais”. Ela afirma que, até agora, os resultados de uma visita ao Gentle Barn “oferecem melhorias significativas na felicidade e autoestima do jovem, além de reduzir os níveis de raiva, ansiedade, desesperança, depressão e solidão”.

Don McCollister é diretor de relações comunitárias da Pacific Lodge Youth Services, em Woodland Hills, Califórnia, instituição sem fins lucrativos que oferece tratamento a adolescentes do sexo masculino em liberdade vigiada. A maioria dos moradores é de membros de gangues “à beira de uma importante decisão na vida”, diz McCollister. “Se eles não mudarem alguns pontos cruciais, poderão acabar passando a vida na cadeia.”

Ele afirma ainda que, já que os garotos entram para as gangues muito jovens, sua organização é obrigada a lidar com anos de condicionamento negativo. Ele leva grupos ao Gentle Barn duas vezes por mês, como parte da programação de atividades. “Temos entre seis e nove meses para fazer com que algo positivo aconteça dentro deles. O Gentle Barn é um ótimo catalisador para isso.”

Segundo McCollister, durante uma visita, havia um membro de gangue “muito durão e muito agressivo” que ficou em silêncio ao ouvir a história de um cavalo que havia sido espancado repetidas vezes. Mais tarde, descobriu-se que, na infância, o pai do rapaz havia lhe quebrado os braços várias vezes. “O jovem foi visto depois nos fundos do estábulo, chorando e acariciando gentilmente a cabeça do cavalo, repetindo várias vezes: ‘Ninguém vai te machucar agora’.” McCollister afirma que uma visita ao Gentle Barn tem o poder de “deslumbrar um jovem, mostrar a ele compaixão e empatia e, principalmente, convencê-lo de que sua história não acabou. Ele ainda pode mudar e viver uma vida feliz e significativa”.

Segundo Weiner, manter o Gentle Barn custa 50.000 dólares por mês. O financiamento vem de doações individuais, através do website, de doações familiares, de apoios corporativos e de fundações. Entre os principais doadores, estão Ellen DeGeneres, Toyota, CBS, William Morris Endeavor e Princess Cruises.

Fonte: Veja
Autor: Karen Jones, do The New York Times
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