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Mais de 31 milhões de cães e 15 milhões de gatos fazem a alegria de fabricantes de rações, e produtos destinados ao mercado pet brasileiro. Segundo colocado no ranking de mundial, o País só perde para os Estados Unidos e conta com cerca de 40 mil lojas para o setor. A cada ano, surgem novos atraídos pelo negócio, que cresceu em torno de 8,5% em 2012, se comparado com o ano anterior, e movimentou 0,39% do Produto Interno Bruto (PIB) nacional. Criada como “membro da família”, uma grande parcela destes animais de estimação não come mais restos de comida nem toma banho de mangueira. Graças a donos mais cuidadosos, ganham rações nutritivas e balanceadas e frequentam clínicas e estéticas especializadas.

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Além de contar com alisamentos de pelos, tosas personalizadas, entre uma série de outros tratamentos de higiene e beleza, os pets modernos também são contemplados com serviços de babás, passeadores, adestradores, psicólogos e clínicos veterinários. Dos serviços aos produtos, sempre há uma novidade, e o mercado tem apostado em itens de primeira linha. Quem procurar encontrará até comida congelada para cães (cordeiro com grão-de-bico e risoto vegetariano são algumas das receitas disponíveis na versão que passa pelo freezer). Os cuidados com saúde, alimentação e lazer estão inseridos no familiar com a mesma prioridade que a matrícula das crianças na escola.

A evolução da consciência de que a natureza e os animais merecem respeito e a melhora da renda dos brasileiros, iniciada nos anos 1990, são fatores que estão diretamente relacionados ao aprimoramento dos tratos com os pets. Implementadas durante estes últimos 20 anos, as pet shops contribuíram para a disseminação de marcas de produtos de alimentação e brinquedos e fortaleceram o conceito de que banho, tosa e outros tratamentos devem ser realizados preferencialmente por profissionais do setor.

Uma pesquisa divulgada pela consultoria GS&MD – Gouvêa de Souza aponta que, até o final de 2012, o mercado pet teria movimentado R$ 12,7 bilhões, cerca de R$ 1 bilhão a mais do que em 2011. Segundo o estudo, o gasto médio de uma família brasileira com seu animal de estimação gira em torno de R$ 800,00 por ano no caso de cães, e cerca de R$ 500,00 no caso de gatos.

Por sua vez, dados da Associação Brasileira da Indústria de Produtos para Animais de Estimação (Abinpet) mostram que a cadeia gera 1,02 milhão de empregos nas 521 indústrias, 287 laboratórios e instituições de ensino e 87.170 empresas que compõem a rede de comercialização.

De acordo com a Associação Nacional dos Fabricantes de Alimentos para Pequenos Animais (), somente em ração foram 1,8 milhão de toneladas em 2012, com faturamento de US$ 3,07 bilhões. Além de cães e gatos, outros bichos demandaram estas vendas: no , cerca de 5,6 milhões de pássaros e 2,5 milhões de peixes têm endereço e um proprietário que os ame.

Do pátio para cima do sofá
O aumento do número de famílias brasileiras morando em apartamentos colaborou para que os pets de hoje em dia tenham se aproximado mais dos proprietários – literalmente, devido à redução do espaço físico. E maioria deixou o pátio para frequentar o sofá da residência. Isso está diretamente ligado ao fato de que a cada ano cresce o número de brasileiros que moram sozinhos, enquanto se proliferam casais sem filhos, ou que optaram por ter apenas uma criança – abrindo espaço para que o vínculo afetivo entre os proprietários e seus animais de estimação se amplie na mesma proporção.

Mais do que gastar com rações e vacinas, os donos de cães e gatos do século XXI frequentam o comércio do setor para agradar os pets. A psicóloga Mônica Kobalchini faz parte deste time. Ela admite que, no Natal ou nos aniversários, dá presentes para suas duas gatas. “Gasto mais para mimá-las do que para suprir as reais necessidades delas”, afirma, explicando que as felinas demandam poucos custos. Mônica prefere dar o banho nas bichanas em casa. “No mais, são despesas veterinárias ou gastos com areia, petiscos e ração, até porque o mercado de gatos é bem menor do que o de cães”, diz a psicóloga, mostrando uma “pontinha de mágoa”.

E, se colocar o valor dos custos na ponta do lápis contasse (mesmo), nem isso impediria toda a atenção dispensada para a daschund Nina, uma entre muitas cadelas sortudas (porque ainda há quem negligencie os cuidados necessários aos animais) espalhadas pelo País. Adotada pela família do estudante de Engenharia Marco Becker (21 anos), Nina costuma ser levada à clínica veterinária para de revisão e procedimentos de . Somente em dezembro do ano passado, a família desembolsou R$ 700,00 na compra de remédios e produtos de higiene para a mascote. Todo mês, ela volta para casa com antipulgas aplicado e um brinquedinho novo. Na despensa, quatro marcas de ração acusam que a cadelinha é exigente: “Tentamos várias, mas ela não come nenhuma”, relata Becker.

Empresas investem em artigos e atendimento de luxo
“A classe A gosta de produto de luxo, e não olha o preço”, garante a sócia-diretora da pet shop Mundo Animal, Marione Pinheiro. “Mas a classe B, embora questione ou compare valores, gasta na mesma proporção, de acordo com seu poder aquisitivo – seja em produto ou em serviço”, complementa a empresária, com mais de 20 anos de experiência no ramo. A Mundo Animal, uma das primeiras do gênero em Porto Alegre, disponibiliza, além de produtos e serviços, um hospital com atendimento 24 horas com serviços exclusivos de hotelaria de day care no espaço de 500m². Ali, 20 veterinários se dividem para atender a cães e gatos.

Presidente da Associação das Empresas de Produtos e Serviços para Animais de Companhia do Rio Grande do Sul (Gespet), entidade criada em outubro de 2012 com foco na especialização deste mercado, Marione e o irmão, Roberto Pinheiro, sempre foram “cachorreiros por entusiasmo” e dedicam-se aos pets desde muito jovens. A empresária acompanhou a evolução dos produtos e serviços do segmento e hoje em dia investe em itens importados nas prateleiras de suas três lojas. Nas gôndolas tem de tudo, até coleiras douradas e com pedras de cristais, ou strass, algumas inclusive de marcas famosas, com a Louis Vuitton. Também as cadeirinhas para automóveis, poltronas e todo tipo de brinquedo para cães, ou arranhadeiras e fontes de água corrente para gatos, chamam a atenção entre milhares de outros produtos, como roupas e acessórios sofisticados, que enchem os olhos da clientela.

Além dos mimos para os bichanos, a Mundo Animal oferece clínica, estética, farmácia e serviços especializados, como endoscopia, internação com isolamento, acompanhamento do proprietário em horário comercial, hotelaria com atendimento VIP, tudo em ambiente climatizado e camas esterilizadas.

Evolução dos produtos e serviços
À frente da rede Águia Veterinária há 12 anos, o empresário Antônio Rodrigo de Aguiar Pires tem visto a rede crescer em torno de 20% a 25% ao ano. Atualmente, a empresa tem três operações em Porto Alegre. Na Silva Só, além de loja, há também estética e clínica 24 horas, com possibilidade de internação. A variedade de produtos é grande: são de cinco mil a sete mil itens em cada loja. A busca por serviços diferentes por parte dos clientes fez com que a empresa investisse em diversas especialidades clínicas, além de inúmeras alternativas de banho, tosa, exames laboratoriais e de imagens. “Assim que ampliarmos o hospital, iremos implementar a tomografia computadorizada”, diz Pires, que vai investir R$ 1 milhão na construção de novo complexo hospitalar nos próximos anos.

Neste período, o empresário acompanhou a mudança de comportamento dos consumidores. “Comparando com os proprietários de antigamente, hoje as pessoas dão muito mais atenção e carinho aos animais de estimação”, opina o empresário, que ressalta que, além da parte de cães (50%) e gatos (35%), a área de pássaros, roedores e peixes também tem bastante demanda entre os porto-alegrenses. Pires acredita que a tendência antes da expansão da rede é investir cada vez mais na qualificação da oferta e atendimento ao consumidor. “Para o futuro, iremos nos focar em um sistema parecido com o de franquias”, anuncia.

Demanda aquecida pelos donos
O pet preferido dos brasileiros continua sendo o cão, mas os gatos também têm espaço cativo, seguidos por peixes, roedores, aves, tartarugas e alguns animais exóticos. Dados do Sindicato Nacional da Indústria de Alimentação Animal (Sindirações) indicam que as fabricantes do setor fecharam o ano com produção em torno de 62 milhões de toneladas de ração e de 2 milhões de toneladas de sal mineral, além de movimento de R$ 47 bilhões para aquisição de insumos nacionais e importados. Segundo a entidade, a produção estimada de alimentos para cães e gatos cresceu aproximadamente 5% em 2012, alcançando cerca de 2,3 milhões de toneladas. “Os animais de companhia são considerados membros das famílias desses proprietários que se estabeleceram no mercado de trabalho formal e tiveram sua renda aumentada, além de encontrar mais crédito ao seu alcance”, comenta o vice-presidente do Sindirações, Ariovaldo Zani.

Na contramão do prato de comida, um nicho que tem crescido no mercado pet é o de fraldas, lenços e tapetes higiênicos (que substituem o uso de jornais) para necessidades fisiológicas de cães, e de areias para gatos. O proprietário da indústria Arrayares, Paulo Darlan, diz que estes produtos e a linha voltada para pessoas da terceira idade são responsáveis por 50% do faturamento da empresa, que há 21 anos trabalha também com fabricação de fraldas para bebês. “O nicho pet e o envelhecimento da população” levaram Darlan a investir nestes dois segmentos há quatro anos. Os produtos são acessíveis e vendem bem para todas as classes, garante o empresário. “Hoje em dia, é comum um casal ter dois cachorros e nenhum filho, então eles gastam quase a mesma coisa que gastariam com crianças, desembolsando em produtos e serviços para os bichos.”

Mercado pet abre espaço para novas empresas
Como praticamente todas as empresas medianas oferecem os mesmos produtos, o que pode ajudá-las na diferenciação é o relacionamento com os clientes, ou o foco em artigos menos convencionais. Ciente de que para se destacar precisava apostar em um nicho específico, a advogada Marcia Bonorino criou a Petit Maurice, grife de roupinhas para cães, com direito a coleções distintas a cada estação.

“O mercado deu uma boa resposta”, garante a empresária, que defende o uso de roupas também no verão: “Se o proprietário corta o pelo do cão e sai no sol muito quente, aquilo faz mal para a pele do cachorro, então colocar uma camiseta fininha é importante”, explica Marcia. Ela decidiu abrir o negócio também porque tinha dificuldade de achar roupas com design simples e “ao mesmo tempo fashion”, que vestissem com mais graça a sua cadela yorkshire, Pommer. “Faltava bom acabamento nas roupas, por mais simples que fossem”, opina. A Petit Maurice vende (pela internet ou para lojistas) camisetas de meia-malha, moletons, capas de chuvas e outras roupas para pequenos animais, ou sob medida para os de maior porte. “Uma camiseta custa em média R$ 36,00”, mensura Marcia.

Assim como a advogada apostou no ramo, o trabalhador da área calçadista Maikon Santos decidiu entrar no segmento, aos poucos: ainda trabalha como assalariado, mas há cerca de um ano passou a confeccionar camas para pets e criou a marca Jujuba Bichos. “É um negócio paralelo. Produzo cerca de 40 itens por mês. Todas as camas têm tecidos de camurça sintética, com estampas bem diferentes, além de fibra 100% de silicone, que torna mais fácil a lavagem”, diz o empresário individual, que também enxergou a possibilidade devido à sua experiência pessoal. “Tenho cachorros, e sei que dão várias despesas. O segmento está em alta, e a tendência é crescer cada vez mais, ao contrário do setor coureiro-calçadista, que está decadente.” Após um investimento inicial de R$ 2 mil, Santos já fatura em torno de R$ 2,5 mil por mês. “Contando os gastos que tenho, o lucro ainda é baixo (45%), mas a ideia é crescer em vendas”, projeta.
Gaúchos e paulistas lideram os gastos

Segundo o Pyxis Consumo, ferramenta de dimensionamento de mercado do Ibope Inteligência, dos bilhões de reais gastos com animais de estimação, 45,47% é desembolsado pela classe B, que representa 24,45% dos domicílios do País. Em seguida vem a classe C, responsável por 52,38% dos domicílios em área urbana, com 28,72% do consumo. “Mesmo gastando mais dinheiro, a classe A fica com o percentual baixo porque representa uma camada mais restrita da população, algo em torno de 2,6% do total do País”, explica a diretora de Atendimento e Planejamento de Geonegócios do Ibope Inteligência, Márcia Sola. Ao analisar os gastos por região, o Pyxis Consumo mostra que o Sudeste é a área com maior potencial: 53,75%. A seguir, aparece o Sul, com 18%.

Na análise por classe e por região do País, a classe B continua na frente em todas as regiões no que se refere às compras de pessoa física junto a varejistas do ramo, as quais incluem alimentação, vacina, banho e tosa, gastos com veterinário, ração, xampus, brinquedos e acessórios, explica Márcia. Ela garante que o mercado pet está em franca expansão. “Os shopping centers cada vez mais têm lojas para animais de estimação na sua área de serviços, e o varejo em geral está começando a se estruturar, de forma que já existem redes com possibilidade de levar futuramente suas operações para todo o País.” A grande maioria deste varejo ainda é de pequeno comércio, pondera Márcia, ressaltando que, apesar disso, “já existem algumas redes aparecendo com força significativa”.

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